25/02/2007
Tati, Cidinha, Rosaura, Laurita e Bárbara, são os nomes de algumas das “crianças” a quem a penapolense Ana Alves de Almeida, de 83 anos, dispensa grande parte do seu tempo. Dá banho, troca de roupas, enfeita com colares, brincos e pulseiras. Penteia os cabelos, enrola, alisa, faz tranças. Mãe de cinco filhos, dos quais não precisa cuidar por já estarem crescidos e com suas famílias, ela estende seu papel de mãe nos cuidados com suas bonecas.
“Eu amo as minhas bonecas como se fossem minhas filhas. Por não ter mais criança, as bonecas acabam substituindo. Enquanto estou cuidando delas o tempo está passando”, declarou.
Arrumadas na cômoda, penteadeira e num sofá especialmente colocado para abrigar as “filhas” de plástico e pano, as bonecas dão vida ao quarto de “Dona” Ana, que é viúva e mora com umas das filhas, na Vila Fátima, em Penápolis.
Sonho
O interesse pelas bonecas vem da infância, quando o brinquedo era feito de sabugo e palhas de milho. Anos depois, continuou alimentando a imaginação das filhas, improvisando da mesma forma a brincadeira por não ter condições financeiras de comprar bonecas.
Já com mais de 70 anos, ganhou sua primeira boneca de plástico, presente de uma das filhas. “Ela sabia que eu gostava. Sempre foi minha paixão, mais depois de ganhar a “Tati”, me animei para comprar outras”, contou “Dona” Ana.
Atualmente, ela cuida de 19 bonecas. Algumas são presentes de familiares, outras ela comprou. “Ganho de amigo secreto, todos sabem que gosto. Quando pensam em mim pensam logo em bonecas”, brincou. “Até uma amiga da minha neta, quando soube, me trouxe uma”, completou.
Cuidados
A cada dois meses, a penapolense pede ajuda à filha para dar banho em todas as “filhas” de plástico, suas preferidas justamente por poder molhá-las e trocar facilmente suas roupas. Com uma bacia de água, sabonete, uma frauda e palitos de madeira, ela inicia cuidadosamente a limpeza de cada detalhe. “Demoro umas duas horas para ajeitá-las”, revelou. Depois vem a escolha dos vestidos, saias e blusas, sendo que cada boneca tem, no mínimo, duas trocas de roupa. Como se não bastasse, é também “Dona” Ana quem confecciona grande parte dos modelos usados pelas “filhas”. “Faço tudo de crochê. Pelo jeito da boneca escolho a cor, o modelo, e crio a roupa”, disse. A penapolense também aproveita os brinquedos que as bisnetas já não querem mais. “Antes de jogar alguma fora elas já perguntam se eu quero e eu falo ‘claro que sim!’”, comentou, “Elas também ficam dizendo “Bisa, se a senhora visse uma boneca que tem lá na loja!’ e eu respondo que nem vou ao bazar por isso, para não vê-las e querer trazê-las todas”, brincou a bisavó, que disse se encantar ainda mais com os brinquedos da modernidade. “As bonecas de hoje são lindas, eu tenho uma, a Bárbara, que até anda sozinha”, admirou-se.
Ciúme
Bisavó de sete crianças, a penapolense deixa apenas que as mais velhas mexam em sua coleção, para que as pequenas não desarrumem nada. “As duas menores eu não deixo mexer porque pegam as bonecas pelos cabelos, viram de cabeça para baixo, e eu não gosto porque tenho amor a elas”, revelou a senhora, que disse ainda manter a porta do quarto fechada quando chega alguma criança “arteira”. “E se alguma criança que não é da família vem aqui, começa a mexer e a mãe não diz nada, eu fico naquela agonia”, confessou.
Em seu quarto, cada boneca tem o seu cantinho e “Dona” Ana não gosta de vê-las fora do lugar ou desarrumadas. Mais que simples objetos de coleção, os brinquedos são sua companhia. “Converso com elas, são o melhor presente que eu tenho na vida. Nada me agrada mais do que ganhar uma boneca”, contou, “Parece que eu durmo mais feliz por estar no meio delas”, finalizou. (AR)
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